A greve dos rodoviários de Salvador foi confirmada e os trabalhadores não irão às ruas a partir de 0h desta sexta-feira, 22. A decisão aconteceu após a segunda reunião mediada pelo Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região (TRT-5) terminar novamente sem acordo entre o setor patronal e os trabalhadores do transporte público de Salvador.
O Sindicato dos Rodoviários afirmou que a proposta apresentada pela Justiça do Trabalho era considerada “defensável” pela categoria. No entanto, segundo a entidade, os empresários não aceitaram os termos sugeridos durante a mediação conduzida pelo tribunal.
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Diante do impasse nas negociações, os trabalhadores realizaram uma assembleia geral logo após o encerramento da audiência e deliberaram pela deflagração de greve por tempo indeterminado a partir da 0h desta sexta-feira, 22.
A paralisação deve atingir o sistema de ônibus da capital baiana e impactar milhões de passageiros que utilizam o transporte público diariamente.
Durante o discurso do anúncio da greve, o presidente do sindicato dos rodoviários, Hélio Ferreira, criticou a proposta enviada pelos empresários.
"2.36% de aumento é uma vergonha, 2.36% de aumento deveria ser de ganho real, não de aumento salarial para uma classe importante como nós", afirmou o presidente do sindicato da categoria.
Ainda de acordo com o presidente da categoria, a proposta do tribunal foi aprovada por unanimidade, porém a proposta dos empresários foi negada completamente, resultando na greve.
Os rodoviários de Salvador, no entanto, ainda não definiram a quantidade de ônibus que estarão nas ruas, já que o serviço é considerado essencial e pela Lei das Greves não pode deixar de funcionar de maneira integral. "Está com o nosso jurídico", respondeu Hélio Ferreira.
Pontos em divergência
De acordo com Fábio Primo, diretor e presidente interino do Sindicato dos Rodoviários, entre os pontos que permaneceram em divergência,estava a remuneração das horas extras aos fins de semana e mudanças relacionadas ao monitoramento operacional.
“A proposta dos empresários era congelar o reajuste do ticket, aumentar a contrapartida de 10% para 20%, dar 2,36% no salário e ainda retirar alguns direitos que a gente já tinha. A gente sabe que greve dos ônibus prejudica a população. É um risco de perde-perde para todo mundo. Ganha mais sem greve: ganha o poder público, ganha empresário, ganha trabalhador e ganha a população.”
O dirigente também revelou que recebeu contato do prefeito de Salvador durante a assembleia realizada após a audiência.
“O prefeito me ligou durante a assembleia dizendo que os empresários devem voltar a procurar a gente. Durante toda a campanha salarial ele tentou mediar e pressionar para que houvesse proposta, mas depende da vontade dos empresários também.”
Sindicato atribui crise do sistema ao modelo de operação
Além da discussão salarial, representantes da categoria também apontaram problemas estruturais no modelo de transporte coletivo adotado em Salvador.
Para o diretor do Sindicato dos Rodoviários, Thiago Ferreira, as dificuldades relatadas pelas empresas devem ser discutidas com o poder público e não repassadas aos trabalhadores.
Isso é uma relação entre os empresários e a Prefeitura de Salvador, que é quem tem o poder de decidir sobre esse tema
Segundo ele, o modelo de operação por bacias implantado nos últimos anos teria contribuído para fragilizar economicamente parte do sistema.
“No meu ponto de vista foi um modelo muito errado. Existiam várias empresas e, com a mudança, algumas deixaram de operar. Se está ruim para os empresários, imagine para os trabalhadores.”
Thiago também defendeu que o debate sobre financiamento do transporte avance para além do reajuste tarifário e citou propostas de ampliação do subsídio público.
“Está na hora de debater tarifa zero na cidade, no estado e no país. Existe um debate nacional que precisa avançar para que a população tenha transporte de qualidade.”
Rodoviários relatam desgaste, violência e adoecimento
Durante a assembleia, trabalhadores também citaram dificuldades enfrentadas na rotina da categoria.
O rodoviário Don Gonzaga afirmou que, além das reivindicações econômicas, existe insatisfação relacionada às condições de trabalho.
Segundo ele, episódios de violência, pressão cotidiana e problemas de saúde têm feito parte da realidade dos profissionais.
“A situação do rodoviário hoje envolve violência, problemas de saúde e desgaste emocional. Tem trabalhador que entende que já deveríamos discutir até temas como salubridade e segurança por conta do que enfrentamos dentro e fora dos ônibus.”
Principais reivindicações da categoria
Entre os pedidos da classe trabalhadora, destacam-se:
Reposição da inflação com 5% de ganho real;
Aumento no valor e na quantidade do tíquete-alimentação;
Redução da jornada diária para seis horas;
Revisão da chamada “carta horária”;
Melhores condições de trabalho e gratuidade no transporte;
Estabilidade pré-aposentadoria;
Implantação de turnos fixos e direito a troca de linha;
Gratificação por atuação em grandes eventos;
Prêmio por assiduidade;
Complemento do plano de saúde;
Implantação da Participação nos Lucros e Resultados (PLR);
Instituição de day off (folga no aniversário).
Na manhã desta quinta-feira, os trabalhos foram iniciados pela desembargadora Ivana Magaldi, que sugeriu conversar separadamente com cada uma das partes para estreitar as propostas.
A primeira conversa privada foi conduzida pela magistrada com as lideranças dos rodoviários, representadas por Hélio Ferreira (presidente do sindicato), Daniel Mota (diretor de comunicação) e Fábio Primo. Em paralelo, o grupo de empresários reuniu-se em outra sala.
O objetivo do tribunal com essas reuniões bilaterais
Fonte A Tarde
Foto Rafaela Araujo
