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Conheça a história do aluno que ninguém percebe: Autismo dentro da faculdade de Medicina

Conheça a história do aluno que ninguém percebe: Autismo dentro da faculdade de Medicina

O Setembro Amarelo é uma campanha brasileira de conscientização e prevenção ao suicídio, criada para alertar a população sobre a importância de falar sobre o tema e oferecer apoio a quem precisa.

O Setembro Amarelo surgiu no Brasil em 2015, idealizado pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), com o objetivo de reduzir o estigma em torno do suicídio e estimular a busca por ajuda profissional e apoio emocional.

Com o objetivo de estimular a busca por ajuda profissional e sobretudo incentivar aos órgãos de poder e saúde  para um olhar sensível para todos os públicos, o sitebahianews.com ouviu o relato emocionante de Thalles Mariano Acadêmico de Medicina.

Estudantes autistas enfrentam estereótipos, preconceito e isolamento em uma graduação marcada pela pressão por desempenho; para muitos, o maior desafio não está nas provas, mas em conseguir pertencer.

Ele está na sala de aula. Faz provas. Apresenta trabalhos. Participa de discussões. Usa jaleco, frequenta hospitais, estuda durante horas e, para quem olha de fora, parece apenas mais um entre centenas de estudantes de Medicina.

Mas existe uma parte dessa experiência que quase ninguém vê.

O estudante autista pode aprender a observar o ambiente antes de entrar em uma conversa, calcular o momento certo para falar, controlar movimentos, suportar estímulos que provocam desconforto e encontrar maneiras de se adaptar a situações sociais que parecem naturais para outras pessoas.

Quando consegue fazer tudo isso, surge uma contradição: quanto mais invisível é o autismo, menos as pessoas percebem que aquele estudante também pode precisar de compreensão.

É uma realidade particularmente complexa para pessoas com transtorno do espectro autista (TEA) que apresentam menor necessidade de suporte e conseguem manter independência em diferentes áreas da vida.

Dentro de uma faculdade de Medicina, onde desempenho, produtividade e capacidade de adaptação são frequentemente valorizados, essa invisibilidade pode ganhar outra dimensão.

O diagnóstico pode não ser percebido.

A dificuldade pode não ser percebida.

A sobrecarga pode não ser percebida.

E, muitas vezes, a solidão também não.

Quando o autista não corresponde ao estereótipo

Você nem parece autista.”

A frase pode ser dita como elogio, surpresa ou até tentativa de aproximação. Mas carrega uma ideia equivocada: a de que existe uma aparência específica para o autismo.

Não existe.

O espectro autista reúne diferentes manifestações, características e necessidades. Pessoas autistas podem se comunicar de maneiras distintas, estabelecer vínculos, apresentar excelente desempenho acadêmico e desenvolver estratégias para lidar com situações sociais.

O problema começa quando essas características são utilizadas para invalidar o diagnóstico.

Se conversa bem, “não parece autista”.

Se tira boas notas, “não precisa de ajuda”.

Se consegue apresentar um seminário, “não tem dificuldade social”.

Se gosta de Medicina, “é apenas uma pessoa muito dedicada”.

A complexidade desaparece atrás de interpretações simplistas.

E o estudante passa a viver uma situação paradoxal: precisa lidar com dificuldades que os outros não enxergam e, ao mesmo tempo, pode precisar provar que elas existem.

O preconceito que não precisa ser declarado.

Nem todo preconceito acontece por meio de uma ofensa explícita.

Às vezes, ele aparece em pequenos afastamentos.

No convite que deixa de chegar.

Na conversa que termina quando o estudante se aproxima.

No grupo que se forma sem incluí-lo.

Na pessoa que deixa de tentar estabelecer amizade depois de perceber que ele se comunica de uma maneira diferente.

Também pode existir medo de não saber como conversar, de cometer uma gafe, de lidar com alguém que foge ao padrão conhecido, e, em determinadas situações, vergonha.

de estar próximo de alguém que os outros consideram “diferente”, de assumir uma amizade, provocada pelo próprio preconceito, ainda que não seja verbalizado.

O resultado é uma forma silenciosa de exclusão.

Ninguém precisa dizer “você não pertence a este grupo”.

Às vezes, as pessoas simplesmente param de se aproximar.

Ser “intenso” pode virar motivo para afastamento

Outro estereótipo aparece quando o estudante demonstra interesses intensos, fala com entusiasmo sobre determinado assunto ou mergulha profundamente em uma área de conhecimento.

Na Medicina, isso pode ser interpretado como dedicação.

Mas também pode receber outro nome: “intensidade demais”.

O estudante pode ser visto como aquele que “só fala de Medicina”, “só estuda”, “não sabe conversar sobre outra coisa” ou “leva tudo a sério demais”.

A questão é que existe uma diferença entre compreender uma característica e utilizá-la como justificativa para afastar alguém.

E há ainda uma pergunta importante:

Por que esperamos que o estudante autista precise viver exclusivamente para a Medicina para ser considerado adequado dentro dela?

O autista também quer uma vida fora do jaleco

Existe uma imagem romantizada do estudante autista extremamente focado, que passa horas estudando, conhece todos os detalhes de uma doença e transforma a faculdade no centro absoluto da própria existência.

Alguns podem se identificar com esse perfil.

Outros, não.

O estudante autista também pode querer sair, viajar, ir a festas, ter amigos, namorar, praticar esportes, dedicar-se à arte, à espiritualidade ou simplesmente passar algumas horas sem ouvir uma única palavra sobre Medicina.

Autismo não é sinônimo de viver para a faculdade.

Quando alguém foge desse estereótipo, porém, pode enfrentar um fenômeno curioso: não é percebido como autista e, ao mesmo tempo, continua sendo julgado por características relacionadas à sua forma de interagir com o mundo.

É como se houvesse uma expectativa permanente de que ele precisasse “parecer autista” para ser compreendido.

O aluno excelente também pode estar sofrendo

A Medicina é uma graduação conhecida pela exigência acadêmica, pela extensa carga horária e pela necessidade de conciliar teoria, prática e responsabilidades crescentes.

Nesse ambiente, estudantes que apresentam bom desempenho podem se tornar ainda mais invisíveis quando enfrentam dificuldades.

A nota alta passa a funcionar como uma espécie de argumento contra o sofrimento.

“Mas ele é tão inteligente.”

“Ele dá conta de tudo.”

“Ele nunca reclama.”

“Ele está sempre estudando.”

Essas frases podem esconder uma realidade diferente.

Desempenho acadêmico não é sinônimo de saúde mental.

Um estudante pode ser excelente e estar exausto.

Pode cumprir todas as obrigações e sentir-se isolado.

Pode sorrir nos corredores e não se sentir pertencente.

Pode aprender a suportar determinadas situações durante anos e, ainda assim, precisar de apoio.

Setembro Amarelo: antes da crise, existe uma história

É nesse ponto que a discussão se encontra com o Setembro Amarelo.

Falar de prevenção em saúde mental não deveria significar olhar apenas para quem já chegou ao limite.

É preciso olhar para aquilo que acontece antes.

Para o estudante que começa a se afastar.

Para quem deixa de participar.

Para quem passa a evitar determinados ambientes.

Para quem está sempre cansado.

Para quem sente que precisa esconder partes de si para ser aceito.

Para quem está cercado de pessoas, mas não consegue construir vínculos.

Pertencimento também faz parte do cuidado.

E, quando o assunto é saúde mental, pequenas experiências repetidas de rejeição podem ser tão importantes quanto grandes acontecimentos isolados.

Por isso, discutir autismo dentro da faculdade de Medicina também é discutir prevenção.

Não porque todo estudante autista esteja necessariamente em sofrimento, mas porque ambientes mais inclusivos podem reduzir barreiras, ampliar redes de apoio e tornar mais fácil pedir ajuda quando ela for necessária.

Quem cuida de quem está aprendendo a cuidar?

A pergunta pode parecer simples, mas expõe uma contradição da formação médica.

O estudante passa anos aprendendo a reconhecer sintomas, identificar fatores de risco, ouvir pacientes e compreender diferentes formas de adoecimento.

Mas será que a universidade também ensina a reconhecer quando um colega está sofrendo?

Será que existe espaço para admitir vulnerabilidade sem ser visto como fraco?

Será que um estudante pode dizer “preciso de ajuda” sem medo de ser julgado?

E, principalmente, será que uma pessoa neurodivergente consegue ocupar esse espaço sem precisar esconder constantemente quem é?

Essas perguntas não dizem respeito apenas ao autismo.

Dizem respeito ao tipo de médico que as universidades pretendem formar.

A Medicina precisa aprender a enxergar além do diagnóstico

O estudante autista não deve ser reduzido ao diagnóstico.

Mas também não deveria precisar escondê-lo para ser aceito.

Ele não precisa ser tratado como incapaz.

Não precisa ser colocado em uma posição de excepcionalidade.

E também não precisa ser transformado em um exemplo de superação simplesmente por conseguir chegar à faculdade de Medicina.

Ele precisa ser tratado como pessoa.

Com capacidades.

Com dificuldades.

Com interesses.

Com sonhos.

Com uma vida que existe para além do jaleco.

A inclusão, nesse contexto, não significa apenas permitir que o estudante entre na universidade.

Significa criar condições para que ele não precise passar anos tentando convencer os outros de que merece estar ali.

Porque o autismo que ninguém percebe continua existindo.

O preconceito que ninguém admite continua machucando.

O afastamento que ninguém explica continua produzindo solidão.

E o estudante que parece estar bem pode estar gastando uma quantidade enorme de energia apenas para conseguir parecer bem.

Neste Setembro Amarelo, talvez seja necessário mudar a pergunta.

Não perguntar apenas:

“Você está bem?”

Mas também:

“Você se sente pertencente?”

Porque, antes de formar médicos capazes de cuidar de milhões de pessoas, precisamos construir universidades capazes de cuidar de quem está aprendendo a cuidar.

Nem todo autista parece autista.

Nem todo aluno excelente está bem.

Nem todo afastamento é escolha.

E nem todo sofrimento faz barulho.

 

Foto Arquivo pessoal

 

 

 

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